30 de Janeiro de 2011

Linha do Tua - A tua morte...


No passado domingo, 23 de Janeiro , tive o privilégio de visitar o Tua. Confesso que ainda não o tinha conseguido. Depois de ver centenas de fotografias , ler dezenas de artigos, ver o documentário " Pare , Escute, Olhe" várias vezes , só estando lá é que se tem a noção da grandiosidade do Vale do Tua. Fiquei completamente rendido perante tanta beleza !! Saindo do Porto no Interregional n.º 861 com partida ás 7:25 de Campanhã e tendo como novidade ter sido efectuada a viagem a bordo da UDD  n.º 0459 , lá foi o trio habitual para mais uma viagem que se tornou inesquecível por ter sido totalmente cativado por tamanha paisagem. Efectuou-se uma caminhada pelos primeiros Kms da Linha do Tua e já se teve uma, não pequena, mas grandiosa noção do que é esta Linha. ! Como alguém dizia no documentário só estando no Tua , só indo ao Tua se consegue perceber o que representa, a todos os níveis, esta Linha e esta região. Uma viagem que recordarei por muito tempo e que teve a particularidade de que o caminho de volta até a estação ter sido feita em passo acelerado, quase a correr , pois o tempo passou a voar e o comboio para o Porto estava quase a partir ! !


"Geralmente, as coisas terríveis que se fazem sob o pretexto de que o progresso assim o exige não são realmente progresso…são apenas coisas terríveis"

A Linha do Tua é uma ligação ferroviária em bitola métrica (via estreita), que ligava a estação do Tua (partilhada com a Linha do Douro) à estação de Bragança, em Portugal.

O comprimento total da linha é de 133,8 km.

A Linha do Tua tem uma História que remonta a 1878, quando foram apresentados dois projectos distintos para a construção de uma via-férrea no Vale do Tua, um pela margem direita (engenheiro João Dias, condutor Bernabé Roxo, sob direcção do engenheiro Sousa Brandão), e outro pela margem esquerda (engenheiro António Pinheiro). Seria este último o que viria a ganhar a corrida.

Nesta fase, a Linha do Douro avançava vinda do Porto com destino à fronteira do Rio Águeda com a Espanha, em Barca d'Alva. O intuito da Linha do Tua seria, embrionariamente, assegurar uma ligação entre o Douro e Zamora.

O seu traçado veio a prever depois uma ligação a Vinhais, seguindo o vale do Tuela ou o planalto entre o Tuela e o Rabaçal, mas a dureza deste traçado superaria o do próprio Baixo Tua onde a linha acabou por avançar, sendo pois abandonado.

Em 22 de Junho de 1882 a Câmara de Mirandela apresentou à Câmara dos Pares do Reino a aprovação do projecto de lei para a subvenção de 135 contos de réis, para cobrir a garantia de juro de 5% para a empresa que viesse a construir a Linha do Tua.

Em 11 de Janeiro de 1883, ano em que a Linha do Douro chegaria à estação do Tua, a Câmara de Mirandela apelou ao Rei D. Luís I para a aprovação da Linha do Tua, acto para o qual veio a contar com o apoio da Associação Comercial do Porto, que pretendia salvaguardar os seus interesses ao dar mais força ao Vale do Douro como via de transporte, em detrimento de vias mais a Sul, como Aveiro a Vilar Formoso.

Em 26 de Abril de 1883, é lançado em Carta de Lei o concurso para a construção da Linha do Tua, ficando ao Conde da Foz adjudicada a obra; viria a trespassá-la à Companhia Nacional de Caminhos-de-Ferro (CN - cujo símbolo é ainda visível na estação de Bragança), em Dezembro desse ano.

O grupo que construiu a primeira fase da Linha do Tua (até Mirandela) foi o mesmo que veio a construir a Linha do Dão (Santa Comba Dão - Viseu), primeira via-férrea a chegar a Viseu, antes da Linha do Vouga, inaugurada em 1890.

As semelhanças entre estas duas vias estreitas passam ainda pela partilha do mesmo engenheiro: Dinis da Mota.

Em 26 de Maio de 1884 é confirmada a adjudicação da obra à CN, assinando-se o contrato definitivo em 30 de Junho do mesmo ano. A 16 de Outubro, a Linha do Tua começa a ser construída, a partir de Mirandela, rumo à Foz do Rio Tua.

A obra teve nos seus primeiros quilómetros uma tarefa facilitada: inserida num vale aprazível e plano, até chegar ao estreitamento de Abreiro, apenas um túnel foi escavado (Frechas), além de esporádicas trincheiras e pontões, com uma única ponte metálica de pequenas dimensóes no Cachão.

No entanto, Abreiro tornou-se o prenúncio de uma das obras mais extraordinárias de sempre da engenharia portuguesa. Fruto das dificuldades do terreno, e de uma força de trabalho altamente conflituosa, o engenheiro responsável deixou o seu lugar vago, dando entrada a um dos mais notáveis engenheiros portugueses do século XIX, o engenheiro açoriano Dinis da Mota, que viria também a deixar a sua assinatura na Linha do Dão

Com o pequeno prelúdio de Abreiro ultrapassado pelos primeiros grandes paredões de suporte e a maior ponte metálica até então necessária (destruída e substituída após cheias no Rio Tua no início do século XX), o Vale do Tua volta a dar tréguas, com algumas dificuldades que começam a ser cada vez mais contínuas. A partir da Brunheda, entra-se no Baixo Tua, e começa a fase mais épica da construção da Linha do Tua.

Em apenas 10 km, a partir da estação do Tua, foram necessários dois viadutos e uma ponte (Presas, Fragas Más e Paradela), e cinco túneis (Presas, Tralhariz, Fragas Más I e II, e Falcoeira) que totalizam uma distância de 456 metros.

Estes, particularmente na zona das Fragas Más - garganta do vale formada por rochedos titânicos, foram conquistados à Natureza com métodos e homens tão temerários como os que ficavam presos por uma corda a uma plataforma elevada nas escarpas, baixados até à plataforma da via, onde acendiam o rastilho da dinamite e eram rapidamente subidos para a plataforma, antes da encosta vomitar pedaços de rocha na explosão.

A 27 de Setembro de 1887 a Linha do Tua era inaugurada, com a locomotiva E81 baptizada Trás-os-Montes, e conduzida pelo próprio Dinis da Mota. Em Mirandela, a grande estação (a maior estação de via estreita portuguesa) acolhia entre muitas figuras ilustres, El-Rei D. Luís I. A 29 desse mês a linha era aberta à exploração.

Um dos nove concorrentes apurados para o Festival RTP da Canção de 1979 foi o tema “O comboio do Tua”, interpretado por Florência, que recebeu 63 pontos, sendo classificado em oitavo lugar.

Em 1982, encontravam-se a circular, em toda a extensão desta linha, composições rebocadas por locomotivas da Série 9020.

O troço Carvalhais - Bragança encontra-se encerrado a todo o tráfego ferroviário desde 1992. Esta data está envolta em controvérsia, uma vez que em Dezembro de 1991 se encerrou o troço Mirandela - Macedo de Cavaleiros, deixando o troço até Bragança isolado da rede ferroviária nacional.

Poucos dias depois, um descarrilamento em Sortes veio ditar o encerramento do troço Macedo de Cavaleiros - Bragança, de forma indeterminada, finalmente confirmada em 1992.

A operação de encerramento definitivo do troço Mirandela - Bragança ocorreu durante a noite, sem aviso prévio, e simultaneamente em Bragança e Macedo de Cavaleiros.

Foi registada a presença de forças policiais, tanto para evitar ao máximo o registo de imagens, como para afastar a população, que ao saber da operação acorreu às estações destas localidades.

O material circulante estacionado nestas foi retirado não por via ferroviária, mas via rodoviária. Foi relatado nessa noite um súbito corte nas telecomunicações. Devido a estes acontecimentos, o evento é recordado como "A Noite do Roubo".

Parte do trajecto da Linha do Tua encontra-se neste momento ameaçado de submersão pela albufeira prevista para a Barragem do Tua. Se for concretizada a construção, será submergida parte da linha, deixando-a isolada da restante rede nacional ferroviária.

Após o conturbado processo de encerramento do troço Mirandela - Bragança, dividindo-o em dois troços entre as localidades de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança, que se arrastou entre Dezembro de 1991 e finais de 1992, a Câmara Municipal de Mirandela assumiu um projecto audacioso da reabertura de parte desta via encerrada.

Desta forma, nascia em 1995 o Metropolitano de Superfície de Mirandela, aproveitando 4 km de via encerrada, entre as estações de Mirandela e de Carvalhais, assumindo assim o lugar do 2º Metro de Portugal.

Aproveitando as duas estações mencionadas atrás, mais o antigo apeadeiro de São Sebastião, foram criadas adicionalmente as paragens de Tarana, Jacques Delors e Jean Monet.

A par dos nomes das automotoras que compunham a frota inicial do MM, Lisboa, Paris, Estrasburgo e Bruxelas, os nomes das estações novas (excepção feita à de Tarana) pretendem ser uma homenagem à União Europeia, que financiou todo este projecto.

O seu propósito original foi o de garantir aos estudantes do pólo do ensino superior sito em Carvalhais um transporte mais fácil.

Com o objectivo de estender este conceito aos alunos de outros níveis de ensino, e população em geral, foi desde logo projectado um acordo para uma rede de Metro entre o Cachão e Carvalhais, algo que nunca veio a acontecer.

O troço entre a estação de Mirandela e a estação do Tua é actualmente explorado pela CP com colaboração do Metro de Mirandela, circulando as unidades pertencentes a este último.

A Linha do Tua está a partir do acidente de dia 22 de Agosto de 2008, encerrada desde a estação do Tua até ao Cachão.

Durante pouco mais de um mês questionei aos amigos deste blogue qual seria a linha férrea em Portugal com circulação ou não, que possuía as paisagens mais bonitas !! A Linha do Tua acabou por reunir mais votos !


11 Comentários:

João Silva 30 Janeiro, 2011  

Luis mais uma caminhada e mais uma dose de belas fotografias ....
Pena o tempo ser curto ...Há mais dias e mais caminhadas .
Gostei !!!!

Teixeira da Silva, AJ (chefe dos alfas),  30 Janeiro, 2011  

Amigo Luís todas as palavras do mundo não chegam para descrever a beleza que percorria em conjunto com esta Linha. Conhecia-a nos seus tempos áureos e nas vésperas do primeiro acidente. Voltei a lembrá-la, em conjunto convosco e,
já não serão tantos, mas recordá-la-ei por todos os meus anos.
É uma paisagem extasiante que só se consegue valorizar através da via férrea.
Bravo...

marionobit 31 Janeiro, 2011  

Magnificas fotografias de paisagens tão belas !! Afinal o crime parece compensar em relação ao tua

Vitor Costa,  31 Janeiro, 2011  

Pois imagens como estas ha muitas nesta linha nao percebo o porque de se fechar ... quer dizer ate percebo mas nao consigo entender com tanta beleza q existe nela tenham feito um crime de tamanha envergadura enfim ..patrimonio e etc,, assim vai o nosso pais..

rui 31 Janeiro, 2011  

Beleza perfeita . A natureza pura assassinada por uma autenticas bestas.

José Ferreira,  01 Fevereiro, 2011  

Imagens, fantasticas de um local que não conheço, mas, ficou registado, na minha proxima ida ao Norte, é local a visitar.

Um Abraço

Rui Castro,  01 Fevereiro, 2011  

Uma zona belissima !! das mais belas do país !

loco5600 01 Fevereiro, 2011  

Este País a cada dia que passa traz-me novas tristezas.

paulorenato 02 Fevereiro, 2011  

Fotografias lindas de uma das zonas mais belas do país !!! Só tive uma vez no Tua e recordo com saudade a viagem que fiz nesse dia !!! Inesquecível aquela beleza da natureza !

paulorenato 02 Fevereiro, 2011  

E as fotos retratam na perfeição a beleza da linha. parabéns sr. fotografo !

Luis 03 Fevereiro, 2011  

Caros amigos,

Muito obrigado pelas vossas visitas e preciosos comentários.

Abraço

Luis

Postagens

acompanhe

Comentários

comente também

Related Posts with Thumbnails
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

  ©Template by Cantinho dos Comboios